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Princípio Ativo – Ayahuasca, Mariri, Santo Daime, etc…

por: Roberto Lazaro Silveira

Este artigo descreve de forma aproximada o modo de preparo, reações adversas e efeitos colaterais assim como elucida os princípios ativos encontrados nos ingredientes de um chá alucinógeno utilizado em algumas ceitas religiosas como União do Vegetal, Mariri, Céu de Maria, Santo Daime, etc…

O chá, é preparado a partir de dois vegetais nativos da região amazônica, um conhecido como Chacrona Psycotria Viridis, família das rubiáceas, e o outro, a Ayahuasca Banisteriopsis caapi, família das malpigiáceas. Essas plantas contêm alcalóides e outras substâncias químicas com propriedades alucinógenas e psicotrópicas.

As principais substâncias encontradas na ayahuasca, resultante da decocção dos dois vegetais, são a harmina , também conhecida como banisterina, dihidroharmina, hermalol, harmalina, dimetiltriptamina (DMT), 5-metoxi-triptamina, cafeína, teobromina e outros.

A harmina é estimulante do sistema nervoso central, onde exerce a ação alucinógena. No passado, foi usada como remédio no tratamento do mal de Parkinson, como anti-helmíntico e para combater certas doenças nervosas. Seu uso constante, porém, pode provocar vômitos e causar sofrimento.

Sua dose letal (DL) para ratos, via subcutânea, é de 200mg/kg de peso. Os alcalóides beta-carbalina, existentes no cipó, inibem a enzima monoaminaoxidase (MAO), que degrada a dimetiltriptamina (DMT), o princípio ativo da folha que provoca alucinações visuais.

Desse modo, não sendo destruída, a DMT continua exercendo a sua atividade alucinógena, caracterizada por fortes sensações luminosas.

Sob o efeito dos componentes químicos do chá, o usuário entra em transe, quando, então, se sente robustecido na crença e na fé, manifestando-se nele a presença do espírito. Logo após manifesta-se a sonolência. Sob o efeito do Daime, a pessoa sente como se estivesse viajando dentro de si mesma e a conseqüência se manifesta em modificações na percepção.

Os sentidos tornam-se mais aguçados, podendo ocorrer estranhas visões luminosas, até mesmo causando a sensação de estar mantendo contato com pessoas distantes.

Essa sensação pode ser tão forte que faz a pessoa sentir-se flutuando no espaço e se aproximando de Deus, para com Ele conversar. Finalmente, ela perde a noção de tempo, que pode variar para mais ou para menos, de acordo com as emoções mais íntimas de cada um. Garantem alguns usuários, que o Santo Daime é reverenciado porque representa, para os praticantes da seita, disciplina, conselho, repreensão, vigor e conforto.

Qualquer análise da composição química desses dois vegetais, mesmo que superficial, leva a um questionamento que torna difícil, para qualquer um, emitir parecer favorável aos usuários do chá, atestando que o hábito de utilizá-lo não faz nenhum mal, como, também, afirmar o contrário, isto é, que o seu uso pode provocar dependência e, portanto, tornar-se altamente perigoso para a saúde.

De um lado existem aqueles que fazem do uso do Santo Daime verdadeiro ritual místico, que deve ser praticado com veneração e respeito, e, por isso, não ultrapassam o limite de segurança na dose usada, existem, também, aqueles que usam o chá, simplesmente, por modismo, por espírito grupal, ou porque alguns membros da alta sociedade já o estão usando regularmente e, quase sempre, tomam a bebida repetidas vezes, introduzindo no organismo quantidades de substâncias psicotrópicas e alucinógenas em concentrações acima das consideradas normais.

É de extrema importância mencionar que já existem milhares desses grupos espalhados pelo Brasil, funcionando regularmente. Espiritual ou não, a propriedade psicoativa da Ayahuasca se deve à presença, nas folhas da chacrona, de uma substância enteógena (alucinogéna, para outros autores) denominada N,N-dimetiltriptamina (DMT), produzido naturalmente (em doses menores) no organismo humano. O DMT é metabolizado pelo organismo por meio da enzima monoamina oxidase (MAO), e não tem efeitos psicoativos quando administrado por via oral. No entanto, o caapi possui alcalóides capazes de inibir os efeitos da MAO: harmina e harmalina, principalmente.

Desse modo, o DMT fica ativo administrado por via oral e tem sua ação intensificada e prolongada. A ayahuasca provoca “expanção da consciência” sem causar danos físicos, inclusive atribuindo à substância propriedades curativas, como reativar órgãos danificados.

De fato, não há dependência física conhecida, ainda que a dependência do uso da planta em todos os ritos para se atingir estados alterados seja visto como manifestação de uma dependência psíquica bastante estimulada pelo contexto religioso e social.

É provavel que ocorra o desequilíbrio do organismo, pois, quando recebemos substâncias exógenas o corpo humano para a sua produção natural para causas a homeostasia, desta forma, quando a pessoa parar de utilizar a substância provavelmente irá desencadear sintomas para readaptção do organismo.

Riscos para a saúde: Não há dados científicos que indiquem riscos em relação à saúde física. Há, contudo, constantes relatos de vômitos, diarréias e sudorese em alto percentual dos que a experimentam, o que sugere tentativas do corpo em expelir a substância.

O uso contínuo, entretanto, parece favorecer uma tolerância química ao princípio ativo, com os sintomas diminuindo de intensidade. Em alguns casos, a ingestão pode levar a sensação de medo e perda do controle, levando a reações de pânico. Na maior parte das vezes tais reações passam junto com o efeito da bebida, sem necessidade de atendimento médico.

Fontes:

  • ASSIS, F.S.L. – Uso Ritual da Hoasca: Recomendações e Cuidados, The Newsletter of the Multidisciplinary Association pharmafor Psychedelic Studies MAPS 7(1); 25-6; 1996-7.
  • CALLAWAY, J.C.; AIRAKSINEN, M.M.; MCKENNA, D.J. et al. – Platelet serotonin uptake sites increase in drinkers of ayahusca, Psychopharmacology 116:385-7, 1994.
  • CALLAWAY, J.C.; GROB, C.S. – Ayahuasca preparations and serotonin re-uptake inhibitors: A potential combination for severe adverse interaction. J Psychoactive Drugs (in press) 1998.
  • CALLAWAY, J.C.; MCKENNA, C.S.; GROB, G.S., et al. – Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. J Ethnopharmacology 65; 243-56, 1999.
  • CAZENAVE, S.O.S. – Alucinógenos. In: Olga, S. Fundamentos de Toxicologia, Atheneu, São Paulo, 1996, pp 329-43.
  • CAZENAVE, S.O.S. – Banisteriopsis caapi: ação alucinógena e uso ritual, Rev Psiq Clín 27;(1), 2000, pp. 1-6.
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  • KATSZUNG, B.G. – Farmacologia Básica e Clínica. 6ª edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1998, pp 204-6.
  • LABATE, B.C.; ARAÚJO, W.S. – O uso Ritual da Ayahuasca. Mercado das Letras FAPESP, São Paulo, 2002.
  • LABIGALINE, E.J. – O uso de Ayahuasca em um contexto religioso por ex-dependentes de álcool. São Paulo, 1998, Dissertação de mestrado, Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina, área de concetração Saúde Mental.
  • MACRAE, E. – Guiado pela Lua: O Xamanismo e o uso ritual da Ayahuasca no culto do Santo Daime. Brasiliense, São Paulo, 1992.
  • MAYER-GROSS, W.; ROTH, M.; SLATER, E. – Clinical Psiquiatric. Grunner and Stratton. New York, 1969.
  • MCKENNA, D.J.; CALLAWAY, J.C.; GROB, CS. – The Scientific Investigation of Ayahuasca: A Review of Past and Current Research. The Heffer Review of Psychedelic Reseach, Volume 1, 1998.
  • NOBRE DE MELO, A.L. – Psiquiatria. Guanabara, Rio de Janeiro, 1981.
  • REZA-BRAVA – Ana Vitória Vieira Monteiro
  • STRERNBACH, H. – The Serotonin Syndrome. Am J Psychiatry 148(6):705-13, 1991.
  • UMEZAWA, K.; SHIRAI A. et al. – Comutagenic effect of norharman and harman with 2-acetylaminofluorene derivates. Proc. Natl. Acad. Sci. USA, 75(2) 928-30, 1978.
 

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  1. Sérgio Barros

    23/06/2013 at 22:37

    Grato pela,oportunidade. Depois de vários convites, hoje experimentei a infusão. Não há como traduzir em palavras as alucinações e o estado psicodélico. A sensação e´tão desagradável que se assemelha ao estado de estertor, não há como estar mais próximo da morte.
    Talvez por isso, quando cessa o efeito que dura 1 hora, o corpo libera uma chuva de endorfinas, o que traz alívio e uma sensação de paz e felicidade.
    Mas não precisa ser especialista para perceber que a Droga é um alucinógeno potente que além das visões, libera o inconsciente com todas as suas informações gerando um estado de realidade virtual como um vídeo salpicado de imagens remontadas.
    Com certeza, primeira e última vez, pois a indução exterior com imagens sincréticas do ritual já disseminadas pela religião, cria uma aparente vínculo entre alucinação e argumentação espiritual.
    Se o estado de espiritualidade tem algo a ver com aquelas alucinações, prefiro ser materialista.

     
    • orlando

      09/03/2014 at 23:59

      Concordo com o sergio barros. fui em uma sessao e tinha muita gente mesmo vomitando e indo ao banheiro. a minha reação foi a de panico e medo pois muita gente passando mal e todos no recinto estavam entorpecidos. nao preciso de alucinogeno para seguir Jesus Cristo.

       
  2. RUIBERG MENEZES MIRANDA

    01/09/2013 at 22:03

    bom ! eu esperimentei o cha e realmente gostei, pois a sensação de prazer e o aguçamento psicologico maior , nao ha como descrever ,mais digo que foi maravilhoso.

     
    • Jamil Nadin

      18/10/2013 at 11:07

      Frequento a UDV a seis meses e digo que o cha não é uma coca cola para se beber mas o beneficio pós dia vale a pena. Abrandou meu coração, minha sensatez e fez me pensar melhor no dia a dia, nas relações, nas decisões.

       
  3. Deisy

    18/09/2013 at 09:53

    Muito interessante este artigo e bem fundamentado. Gostei!